Satã no mundo livre: sentiremos saudade
Em 1989, Neil Young e Cui Jian cantaram o que seus países preferiam não ouvir. Um virou trilha de campanha; o outro, caso de censura. Um ensaio sobre um império que guarda os recibos dos próprios pecados, outro que ainda não abriu seus arquivos, e a saudade que talvez venha.
Igor Andrade Carvalho
10/13/19266 min read


Em fevereiro de 1989, num teatro de Seattle, um canadense de quarenta e três anos estreou uma canção que debochava do presidente dos Estados Unidos. Em maio, do outro lado do Pacífico, um roqueiro chinês foi à Praça da Paz Celestial cantar para estudantes em greve de fome. Pouco mais de duas semanas depois, vieram os tanques e o esquecimento.
O canadense era Neil Young, e a canção, "Rockin' in the Free World". O chinês era Cui Jian, e a canção que os estudantes entoavam com ele se chamava "Nada em meu nome". Dois rocks no mesmo ano, ambos sobre gente que não tinha nada. O que aconteceu com cada um diz muito sobre os dois impérios que hoje disputam o século.
A de Young chegou às lojas no começo de outubro. Cinco semanas depois caiu o Muro de Berlim, e o refrão, que repete como mantra de estádio a ordem de seguir tocando rock americano no mundo livre. Pouca gente prestou atenção às estrofes. Nelas há uma mulher que deixa o filho perto de uma lata de lixo para ir atrás da próxima dose, e há os "mil pontos de luz" que George Bush prometera em 1988 reaparecendo, com ironia, para iluminar um sem-teto.




O ocidental, que nem americano era, continuou xingando presidentes por mais três décadas. Em 2015, sua canção tocou enquanto Donald Trump descia uma escada rolante para lançar a candidatura. Young protestou no mesmo dia; a campanha respondeu que pagara a licença à ASCAP. No mundo livre, até Satã recebe direitos autorais, e o advogado em mim não consegue deixar de achar isso bonito. Em 2020, aos setenta e quatro anos, Young naturalizou-se americano para poder votar contra o mesmo homem da escada da rolante que buscava reeleição.
O chinês teve outra sorte. Depois de junho de 1989, Cui Jian passou anos longe dos grandes palcos de Pequim, e suas letras passaram pela censura. Em 2014, a televisão estatal o convidou para a gala do Ano Novo Lunar com uma condição: cantar outra coisa. Ele recusou. Cui, diga-se, jura que "Nada em meu nome" é só uma canção de amor; os censores, pelo visto, nunca acreditaram. Eu não escuto música chinesa e muito provavelmente não escutarei; e a que tinha algo a me dizer não pôde voltar à China.
Seria cômodo parar aqui, com mocinho e vilão nos lugares de costume. A China tem argumentos que não podem ser ignorados. Segundo o Banco Mundial, quase oitocentos milhões de chineses deixaram a pobreza extrema em quatro décadas, cerca de três quartos da redução global. Há quem veja ali, ainda, um anteparo contra a polarização que as redes americanas espalharam pelo mundo. São argumentos sério, que fazem sentido. Mas o mesmo Estado que tirou centenas de milhões da miséria mandou os tanques à praça, e, segundo o escritório de direitos humanos da ONU, a detenção em massa de uigures em Xinjiang pode configurar crime contra a humanidade. Hong Kong aprendeu em 2020 a medir as palavras.
Os Estados Unidos certamente não são os mocinhos, e nós sabemos disso na pele. Em 1964, Washington aprontou uma força-tarefa naval, a Operação Brother Sam, para socorrer os golpistas caso Goulart resistisse. Não houve resistência, e os navios não chegaram a agir. Só sabemos disso porque os papéis estavam em arquivos americanos, e foi uma historiadora americana, Phyllis Parker, quem os desenterrou nos anos 1970. O império guardou os recibos dos próprios pecados. Não sei se os arquivos de Pequim sobre junho de 1989 terão, um dia, a mesma sorte.
O mundo livre também tem suas cláusulas de exceção.
Volto à música, que é o que me resta. Em 1969, outro canadense, Robbie Robertson (Levon Helm, sulista, atribui a si autoria) , escreveu para The Band uma canção sobre a derrota do Sul, cantada por Helm, o único americano do grupo, criado numa fazenda de algodão do Arkansas. O narrador, Virgil Caine, é um confederado vencido que lembra o irmão de dezoito anos enterrado por um ianque e a noite em que derrubaram o velho Dixie. A canção amarra a queda de Richmond a um 10 de maio, dia em que, na verdade, Jefferson Davis foi preso; a capital caíra mais de um mês antes. A memória do vencido arruma o calendário a seu modo.
É uma canção bela, comovente e sincera, e é aí que mora o perigo. Muita gente cantou, com lágrimas honestas, a saudade de um mundo assentado sobre a escravidão. É a estética da Causa Perdida, a mesma que ergueu estátuas de heróis sulistas e que hoje cabe inteira no "Again" de um boné vermelho.
Virgil sabe que não se reergue um Caine derrotado. Sabe, mas canta como quem não aceita. Essa é a saudade confederada, a que conhece a derrota e, ainda assim, quer o mundo de volta como era. Sentir falta de um mundo é outra coisa.
É hipótese frágil, porque cultura e mercado pesam mais, ainda que envergonhem. Nas músicas dos meus heróis haviam mais Satãs do que santos.
Sentirei saudades.
Já se disse que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que foram tentadas.
Winston Churchil
Keep on rockin' in the free world (Continue arrebentando no mundo livre)
Keep on rockin' in the free world (Continue arrebentando no mundo livre)
Keep on rockin' in the free world (Continue arrebentando no mundo livre)
Keep on rockin' in the free world (Continue arrebentando no mundo livre)
I see a woman in the night (Eu vejo uma mulher na noite)
With a baby in her hand (Com uma criança em suas mãos)
There's an old street light (Tem uma luz em um poste velho)
Near a garbage can (Perto duma lata de lixo)
Now she puts the kid away, and she's gone to get a hit (Agora ela deixa a criança de lado, e foi se drogar)
She hates her life and what she's done to it (Ela odeia sua vida e o que fez com ela)
There's one more kid, that will never go to school (Há ali mais uma criança, que nunca irá para a escola)
Never get to fall in love, never get to be cool (Nunca vai poder se apaixonar, nunca vai poder ser descolada)
There's colors on the street (Há cores na rua)
Red, white and blue (vermelho, branco e azul)
People shufflin' their feet (pessoas dançando)
People sleepin' in their shoes (pessoas domingo em pé)
But there's a warning sign on the road ahead (mas há uma placa de aviso na estrada à frente)
There's lot of people sayin' we'd better off dead (há muitras pessoas falando que estaríamos melhores mortos)
Don't feel like Satan, but I am to them (não me sinto como Satâ, mas eu sou um para eles)
O mundo cantou o refrão e não ouviu os versos.
Foi também o ano em que Francis Fukuyama perguntou se a história não teria chegado ao fim. A palestra que deu origem ao ensaio, feita em Chicago naquele mesmo fevereiro, integrava, com ironia que nenhum romancista ousaria, uma conferência sobre o declínio do Ocidente . Um quarto de século depois, os economistas Anne Case e Angus Deaton, de Princeton, deram nome de "mortes por desespero" para o que estava nas estrofes de Young: as overdoses, os suicídios e as cirroses que encurtam a vida de americanos sem diploma. A canção chegou antes.
Ouço com frequência, de gente que respeito, que, se o poder americano ruir, não sentiremos saudade dele. Talvez. Talvez não. Confesso que não sei, e desconfio de quem sabe. Historiadores são profetas lamentáveis, e eu, ainda mais diletante, nem a esse posto chego.
O que sei é menor e mais pessoal. Não escuto música chinesa. Não por virtude nem por desprezo, mas por herança: a cultura que me foi dada chegou falando inglês, com sotaque americano [nem por isso é inocente]. Meu ouvido foi educado por discos e filmes que vinham de lá. E há uma ironia que não posso desperdiçar, já que as duas canções que conduzem este texto foram escritas por canadenses [sim!]. A América que me formou foi cantada, em boa parte, por estrangeiros que a olhavam de dentro e de fora ao mesmo tempo. Como nós.
Um império também governa pela atração que exerce. Sou prova empírica e orgulhosa, embora envergonhada, da tese.
Young não se sente Satã, mas é isso que ele é para os outros povos. O leitor antigo sabe que o Diabo é hóspede destas páginas; já fundou igreja em Machado de Assis, já abriu banca de advocacia em Nova York com a cara de Al Pacino. Faltava o Satã de guitarra. Em 1989 havia dois.
